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Taxas Negativas na Renda Fixa: É Possível? Entenda o Fenômeno

Taxas Negativas na Renda Fixa: É Possível? Entenda o Fenômeno

02/02/2026 - 16:51
Yago Dias
Taxas Negativas na Renda Fixa: É Possível? Entenda o Fenômeno

Diferentemente do que muitos imaginam, a renda fixa não é imune a períodos de retorno negativo. Embora tradicionalmente vista como porto seguro, a realidade do mercado financeiro moderno envolve marcação a mercado diária e impactos macroeconômicos que podem levar a resultados inesperados.

O Mito da Renda Fixa Garantida

Muitos investidores ainda acreditam que aplicar em renda fixa é sinônimo de segurança absoluta. No Brasil, a Selic em patamares elevados—15% em 2026—sugere prosperidade, mas há nuances importantes. A rentabilidade contratada só é garantida se mantida até o vencimento. Quem sai antes desse prazo pode enfrentar rentabilidade negativa nominal e ver seu capital desalinhado com a inflação.

Além disso, fundos de renda fixa com taxa de administração e cobrança de IR regressivo podem aniquilar ganhos reais. Na prática, a combinação de custos, impostos e variação de preço no mercado secundário torna imprescindível compreender os riscos de liquidez de curto prazo.

Como Surgem as Juros Negativas

Existem várias situações em que o investidor pode acabar operando com taxa negativa:

  • Marcação a mercado: quando as taxas sobem, os preços dos títulos antigos caem para se ajustar ao novo patamar.
  • Deflação: índices IPCA negativos reduzem o Valor Nominal Atualizado (VNA) de títulos indexados.
  • Taxas e impostos: administração, performance e IR podem consumir parte relevante do retorno.
  • Venda antecipada: liquidez diária no Tesouro Direto atrai resgates, mas pode gerar prejuízo.
  • Fatores macroeconômicos: crises fiscais ou estresse em debêntures pressionam preços e liquidez.

Mesmo títulos como Tesouro IPCA+ com contrato de IPCA+4% podem apresentar cotações abaixo de face ao longo do tempo, se o mercado exigir prêmio maior.

Cenário Econômico Brasileiro em 2026

Em março de 2026, o Copom manteve a Selic em 15%, o maior nível desde 2006. As projeções de fim de ano variam entre 12,13% e 12,5%, com expectativa de 10,5% em 2027 e 9,75% em 2028. Enquanto isso, o CDI segue atrativo, acima de 10%, mas deve desacelerar após 2026.

A inflação oficial apresentou deflação de -1,18% entre julho e setembro, ainda que ajustes por cortes de energia e combustíveis indiquem alta de 1,74%. Esse movimento afeta diretamente o VNA de indexados, tornando-os vulneráveis a marcação a mercado.

Além dos títulos tradicionais, fundos de debêntures incentivadas e LFTs já registraram retornos negativos, exemplificando como vendas antecipadas e custos podem corroer o desempenho.

Impactos e Estratégias para Investidores

Para navegar nesse ambiente, algumas práticas são fundamentais:

  • Hold até o vencimento: garante a rentabilidade contratada, evitando flutuações de preço.
  • Diversificar entre prefixados, pós-fixados e indexados para equilibrar riscos.
  • Considerar títulos isentos, como LCIs e LCAs, para potencializar ganhos líquidos.
  • Avaliar o perfil de prazo e liquidez antes de resgatar aplicações.

Além disso, observar os fluxos de capital estrangeiro que aportam intensamente na renda fixa local ajuda a antecipar movimentos de mercado. Em janeiro de 2026, fundos de RF captaram R$ 75,3 bi, enquanto estrangeiros ingressaram com R$ 33,5 bi em B3, sinalizando confiança, mas também volatilidade potencial.

Outro ponto relevante é a política monetária internacional. Enquanto o Fed inicia cortes progressivos, o Brasil ainda opera em juros altos, atraindo recursos, mas exposto a choques externos.

Conclusão

Embora seja raro ouvir sobre rentabilidade negativa nominal na renda fixa local, a combinação de marcação a mercado, deflação e custos pode surpreender. A chave é conhecer profundamente cada produto, manter disciplina até o vencimento e diversificar estrategicamente.

Encare o cenário atual como uma oportunidade de aprendizado e ajuste de portfólio. Com informação e planejamento, é possível navegar pelas nuances dos títulos de renda fixa e proteger seu patrimônio mesmo em momentos desafiadores.

Yago Dias

Sobre o Autor: Yago Dias

Yago Dias