A recompra de ações tem ganhado destaque no mercado brasileiro, mobilizando bilhões de reais em programas que prometem valor aos acionistas. Mas seria esse movimento um reflexo genuíno de força corporativa ou mera estratégia de manipulação de preços?
A recompra de ações ocorre quando uma empresa decide adquirir suas próprias ações no mercado, reduzindo o número de papéis em circulação.
Existem três modalidades principais:
No Brasil, a CVM regula o processo, impondo limites de volume para evitar distorções nos preços e exigindo que ao menos 15% das ações permaneçam em livre negociação.
Além de sinalizar confiança da gestão, as recompras oferecem ganhos imediatos para quem permanece no capital social.
Um estudo com doze empresas da B3 mostrou que, logo após a execução de buybacks entre 2020 e 2024, houve incrementos significativos em LPA e valor de mercado.
O conceito de buyback yield, que relaciona o volume recomprado ao valor de mercado, destaca cases como Localiza (12,9%), MRV (12,6%) e Hapvida (9,9%).
Em média, 60% dos programas aprovados são realmente executados, demonstrando comprometimento das companhias em gerar retorno aos acionistas.
Nem todos os efeitos observados são sustentáveis. Algumas críticas apontam para possíveis distorções e benefícios temporários.
Embora volumes de negociação não cresçam anormalmente durante os programas, críticos alertam para o uso de recompras como ferramenta de insiders para vender ações a preços elevados.
Até o momento, foram recomprados R$ 19,5 bilhões em 2025, com 79 programas ainda pendentes.
Das 360 maiores empresas da B3, 128, ou seja, um terço, mantém programas ativos, abrangendo 1,23% do Ibovespa.
Algumas companhias se destacam por volumes e estratégias diferenciadas:
Além dessas, outros players como Hapvida, Renner, Cogna, Axia e Petrobras também desenvolvem iniciativas robustas de recompra.
A CVM mantém normas rigorosas para evitar manipulação, estudando a liquidez de longo prazo e propondo regras que preservem o free float mínimo.
No cenário global, países como os EUA adotam taxas sobre recompra para desestimular excessos fiscais, enquanto a França já interveio para conter práticas agressivas.
Com Ibovespa em alta de 34% em 2025, a dependência de recompras pode reduzir, mas volatilidade e custos de capital ainda impulsionam novas autorizações.
As recompras de ações representam uma ferramenta legítima de valorização, sinalizando confiança da gestão e beneficiando acionistas remanescentes.
No entanto, devem ser avaliadas com cautela diante de riscos de manipulação, desvio de recursos e impactos fiscais.
Em última análise, o verdadeiro sinal de força ocorrerá quando as recompensas a curto prazo forem equilibradas com investimentos em inovação, crescimento sustentável e remuneração justa de colaboradores.
Referências