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Recompra de ações: Sinal de força ou manipulação?

Recompra de ações: Sinal de força ou manipulação?

19/02/2026 - 13:26
Giovanni Medeiros
Recompra de ações: Sinal de força ou manipulação?

A recompra de ações tem ganhado destaque no mercado brasileiro, mobilizando bilhões de reais em programas que prometem valor aos acionistas. Mas seria esse movimento um reflexo genuíno de força corporativa ou mera estratégia de manipulação de preços?

O que são recompras de ações?

A recompra de ações ocorre quando uma empresa decide adquirir suas próprias ações no mercado, reduzindo o número de papéis em circulação.

Existem três modalidades principais:

  • Recompra em bolsa, realizada a preços de mercado via corretoras.
  • Recompra negociada diretamente com acionistas específicos.
  • Operações com derivativos, comprometendo compra futura a preço fixo.

No Brasil, a CVM regula o processo, impondo limites de volume para evitar distorções nos preços e exigindo que ao menos 15% das ações permaneçam em livre negociação.

Benefícios e impactos positivos

Além de sinalizar confiança da gestão, as recompras oferecem ganhos imediatos para quem permanece no capital social.

  • Elevação do lucro por ação no curto prazo, ao reduzir o número de papéis.
  • Melhora das métricas de preço/lucro e valorização de mercado.
  • Aproveitamento de preços depreciados para criar valor.

Um estudo com doze empresas da B3 mostrou que, logo após a execução de buybacks entre 2020 e 2024, houve incrementos significativos em LPA e valor de mercado.

O conceito de buyback yield, que relaciona o volume recomprado ao valor de mercado, destaca cases como Localiza (12,9%), MRV (12,6%) e Hapvida (9,9%).

Em média, 60% dos programas aprovados são realmente executados, demonstrando comprometimento das companhias em gerar retorno aos acionistas.

Críticas e riscos associados

Nem todos os efeitos observados são sustentáveis. Algumas críticas apontam para possíveis distorções e benefícios temporários.

  • Inflar artificialmente os preços das ações ao criar demanda adicional.
  • Disfarçar desempenho real com lucro por ação elevado artificialmente.
  • Priorizar remuneração de gestores em detrimento de investimentos operacionais.
  • Fuga de impostos e incentivos à evasão fiscal, conforme observado em grandes mercados.

Embora volumes de negociação não cresçam anormalmente durante os programas, críticos alertam para o uso de recompras como ferramenta de insiders para vender ações a preços elevados.

Análise de dados recentes no Brasil

Até o momento, foram recomprados R$ 19,5 bilhões em 2025, com 79 programas ainda pendentes.

Das 360 maiores empresas da B3, 128, ou seja, um terço, mantém programas ativos, abrangendo 1,23% do Ibovespa.

Exemplos de programas de destaque

Algumas companhias se destacam por volumes e estratégias diferenciadas:

  • Prio: até 9,9% das ações visando dividir o bolo em menos pedaços.
  • B3: 230 milhões de ações recompradas para 2026 (4,5% do total).
  • Suzano: programa de R$ 2 bilhões para 40 milhões de ações em até 18 meses.
  • Localiza e MRV: com buyback yield acima de 12%.

Além dessas, outros players como Hapvida, Renner, Cogna, Axia e Petrobras também desenvolvem iniciativas robustas de recompra.

Contexto regulatório e tendências futuras

A CVM mantém normas rigorosas para evitar manipulação, estudando a liquidez de longo prazo e propondo regras que preservem o free float mínimo.

No cenário global, países como os EUA adotam taxas sobre recompra para desestimular excessos fiscais, enquanto a França já interveio para conter práticas agressivas.

Com Ibovespa em alta de 34% em 2025, a dependência de recompras pode reduzir, mas volatilidade e custos de capital ainda impulsionam novas autorizações.

Considerações finais

As recompras de ações representam uma ferramenta legítima de valorização, sinalizando confiança da gestão e beneficiando acionistas remanescentes.

No entanto, devem ser avaliadas com cautela diante de riscos de manipulação, desvio de recursos e impactos fiscais.

Em última análise, o verdadeiro sinal de força ocorrerá quando as recompensas a curto prazo forem equilibradas com investimentos em inovação, crescimento sustentável e remuneração justa de colaboradores.

Referências

Giovanni Medeiros

Sobre o Autor: Giovanni Medeiros

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