O mercado de capitais brasileiro vive um paradoxo fascinante: enquanto o Ibovespa atinge recordes históricos, a janela de ofertas públicas de ações (IPOs) permanece cerrada há quase quatro anos. Esse contraste levanta dúvidas fundamentais sobre o real potencial de valorização de novas listagens e a saúde do ambiente de investimentos no país.
Este artigo propõe uma análise equilibrada entre oportunidades genuínas de investimento e os perigos de valuations excessivos, oferecendo recomendações práticas para investidores que desejam navegar neste cenário complexo.
No biênio de 2020-2021, o Brasil viveu um boom de 2020-2021, com mais de 70 empresas abrindo capital na B3. Em 2021, foram 47 estreias, impulsionadas por juros baixos e apetite global por ativos emergentes.
Entretanto, a trajetória mudou abruptamente. A Selic subiu de 2% para 15%, estabelecendo a principal barreira para IPOs. Ao mesmo tempo, 44 empresas realizaram ofertas públicas para cancelar capital (OPAs), como JBS e Carrefour Brasil, configurando o maior 'deserto' de IPOs em quase três décadas.
Em 2025, o Ibovespa registrou alta de 30%, e logo no primeiro mês de 2026 acumulou +14%, saindo de 160 mil para 184 mil pontos. Esse movimento foi impulsionado por fluxo estrangeiro consistente em busca de emergentes, em paralelo à expectativa de cortes na Selic no primeiro trimestre.
Mais de 50 empresas já estão registradas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), com 10 a 15 prontas para realizar IPO ou follow-on. Setores de infraestrutura estratégica, como saneamento e logística, tendem a liderar as primeiras ofertas do novo ciclo.
Para aproveitar oportunidades e mitigar riscos, é fundamental adotar uma abordagem estruturada, combinando análise fundamentalista e diversificação.
Empresas como PicPay e Agibank optaram pela Nasdaq e NYSE, refletindo migração para bolsas globais em busca de melhores valuations e liquidez. Já a Vittia, último IPO em 2021, ilustra os desafios de sustentação de preço em ambiente de juros altos.
O caso da Infracommerce, com queda de 99,98% desde o IPO, reforça a importância de avaliar não só o setor em crescimento mas também a sustentabilidade do modelo de negócios a longo prazo.
A retomada gradual dos IPOs no Brasil em 2026 ainda é um processo embrionário. A expectativa de cortes na Selic e o fluxo estrangeiro favorável podem catalisar as primeiras ofertas, especialmente nos setores de infraestrutura e tecnologia.
No entanto, manter disciplina fiscal e reduzir a volatilidade eleitoral serão fatores determinantes para a evolução do mercado. Investidores devem se posicionar de forma estruturada, priorizando empresas com governança robusta e múltiplos conservadores, equilibrando a carteira com ativos de menor risco.
Essa fase exige paciência e atenção redobrada, mas para quem se preparar antecipadamente, o momento pode representar uma oportunidade de ouro antes que o mercado retome plenamente seu ciclo de aberturas de capital.
Referências