Investir em empresas que atravessam um processo de recuperação judicial pode gerar dois sentimentos conflitantes: esperança de lucros expressivos e temor diante dos riscos elevados. Em um cenário econômico volátil, entender se esse tipo de ação representa uma oportunidade real de valorização ou uma armadilha para investidores é fundamental para quem busca proteger e multiplicar seu capital.
No Brasil de 2025, jamais houve tantas companhias em regime de recuperação judicial — sinal claro de que, embora exista espaço para ganhos, a instabilidade financeira persiste e requer extrema cautela por parte de quem avalia alocar recursos.
Ao final de 2025, havia 5.680 empresas em recuperação judicial no Brasil, um aumento de 24,3% em relação ao ano anterior. Dessas, 1.665 entraram no processo em 2025 — alta de 35,2% — enquanto apenas 561 conseguiram sair com êxito.
Embora pareça alta, a proporção ainda corresponde a apenas 2,13 empresas em crise a cada mil atuantes. Contudo, a taxa de falência atingiu 29% para as que acompanham esse regime, o que evidencia a dificuldade de recuperação e a volatilidade dos papéis na B3.
Vários elementos macroeconômicos e setoriais convergiram para agravar a situação de companhias em todo o país. Destacam-se:
Tais fatores elevam os custos de capital, drenam o caixa das empresas e limitam sua capacidade de investimento. Em consequência, muitas organizações apresentam fluxos de caixa insuficientes para manter operações e honrar dívidas, desencadeando pedidos de recuperação judicial.
Embora diversas áreas sintam o peso da crise, alguns segmentos destacam-se pelos índices acima da média nacional:
No agronegócio, por exemplo, 493 empresas entraram em recuperação no quarto trimestre de 2025, um aumento de 67% em relação ao mesmo período de 2024. Soja, defensores de custos altos e endividamento elevado são vilões que impulsionaram esse movimento.
Ainda nesse contexto, casos emblemáticos como o da Unigel (R$ 19 bilhões de dívidas) e do Grupo Fictor (R$ 4 bilhões) ilustram como grandes corporações também sucumbem quando a alavancagem financeira se torna insustentável.
Para quem observa o mercado de ações, a recuperação judicial acende dois níveis de atenção:
Essas características abrem espaço para aportes agressivos, mas exigem análise aprofundada do plano de recuperação. Os investidores devem considerar:
Sem um plano consistente, a empresa pode prolongar o processo e deteriorar ainda mais seus resultados, colocando em risco qualquer possibilidade de retorno positivo.
As projeções indicam novo recorde de solicitações de recuperação judicial em 2026. Com a Selic estimada em 12,25% ao fim do ano e juros reais ainda elevados, a pressão sobre o endividamento será intensa. Além disso, o efeito cascata, em que grandes empresas em crise impactam fornecedores e parceiros, tende a multiplicar os pedidos.
No entanto, históricos de crises anteriores mostram que setores essenciais podem recuperar fôlego com políticas de estímulo e reformas estruturais, abrindo janelas de oportunidade para investidores de longo prazo que saibam administrar riscos.
As ações em recuperação judicial caminham na tênue linha entre um forte discount e riscos consideráveis. Com estatísticas alarmantes, mas também margens de valorização, esse universo demanda pesquisa detalhada e perfil arrojado para investidores dispostos a enfrentar a volatilidade.
Na prática, avaliar planos de recuperação com base em premissas realistas, diversificar a carteira e adotar gerenciamento rígido de riscos são passos essenciais para transformar essa potencial armadilha em uma oportunidade de ganhos acima da média.
Referências