>
Mercado de Ações
>
Ações em Recuperação Judicial: Oportunidade ou Armadilha?

Ações em Recuperação Judicial: Oportunidade ou Armadilha?

13/02/2026 - 05:50
Matheus Moraes
Ações em Recuperação Judicial: Oportunidade ou Armadilha?

Investir em empresas que atravessam um processo de recuperação judicial pode gerar dois sentimentos conflitantes: esperança de lucros expressivos e temor diante dos riscos elevados. Em um cenário econômico volátil, entender se esse tipo de ação representa uma oportunidade real de valorização ou uma armadilha para investidores é fundamental para quem busca proteger e multiplicar seu capital.

No Brasil de 2025, jamais houve tantas companhias em regime de recuperação judicial — sinal claro de que, embora exista espaço para ganhos, a instabilidade financeira persiste e requer extrema cautela por parte de quem avalia alocar recursos.

A Realidade das Empresas em Recuperação Judicial

Ao final de 2025, havia 5.680 empresas em recuperação judicial no Brasil, um aumento de 24,3% em relação ao ano anterior. Dessas, 1.665 entraram no processo em 2025 — alta de 35,2% — enquanto apenas 561 conseguiram sair com êxito.

Embora pareça alta, a proporção ainda corresponde a apenas 2,13 empresas em crise a cada mil atuantes. Contudo, a taxa de falência atingiu 29% para as que acompanham esse regime, o que evidencia a dificuldade de recuperação e a volatilidade dos papéis na B3.

  • 510 empresas buscaram recuperação judicial no quarto trimestre de 2025, com dívidas de R$ 40 bilhões.
  • O agronegócio lidera a crise, com 13,53 empresas em dificuldade por mil.
  • Micro e pequenas empresas respondem a 80% dos pedidos, mostrando vulnerabilidade.

Principais Fatores da Crise

Vários elementos macroeconômicos e setoriais convergiram para agravar a situação de companhias em todo o país. Destacam-se:

  • Taxa Selic mantida em altos patamares: 15% ao ano por cinco reuniões.
  • Crédito restrito e caro, com prazos médios de concessão estendidos.
  • Incertezas eleitorais e flutuações cambiais aumentando a volatilidade.

Tais fatores elevam os custos de capital, drenam o caixa das empresas e limitam sua capacidade de investimento. Em consequência, muitas organizações apresentam fluxos de caixa insuficientes para manter operações e honrar dívidas, desencadeando pedidos de recuperação judicial.

Setores Mais Vulneráveis

Embora diversas áreas sintam o peso da crise, alguns segmentos destacam-se pelos índices acima da média nacional:

No agronegócio, por exemplo, 493 empresas entraram em recuperação no quarto trimestre de 2025, um aumento de 67% em relação ao mesmo período de 2024. Soja, defensores de custos altos e endividamento elevado são vilões que impulsionaram esse movimento.

Ainda nesse contexto, casos emblemáticos como o da Unigel (R$ 19 bilhões de dívidas) e do Grupo Fictor (R$ 4 bilhões) ilustram como grandes corporações também sucumbem quando a alavancagem financeira se torna insustentável.

Desafios e Oportunidades para o Investidor

Para quem observa o mercado de ações, a recuperação judicial acende dois níveis de atenção:

  • A exclusão de índices oficiais reduz a visibilidade, mas mantém a negociação na B3.
  • Descontos podem chegar a valores substancialmente abaixo do mercado antes da crise.

Essas características abrem espaço para aportes agressivos, mas exigem análise aprofundada do plano de recuperação. Os investidores devem considerar:

  • Viabilidade do plano apresentado e aderência às premissas de mercado.
  • Qualidade dos ativos e capacidade de geração de caixa futura.
  • Sólida governança e transparência na prestação de contas.

Sem um plano consistente, a empresa pode prolongar o processo e deteriorar ainda mais seus resultados, colocando em risco qualquer possibilidade de retorno positivo.

Perspectivas para 2026 e Além

As projeções indicam novo recorde de solicitações de recuperação judicial em 2026. Com a Selic estimada em 12,25% ao fim do ano e juros reais ainda elevados, a pressão sobre o endividamento será intensa. Além disso, o efeito cascata, em que grandes empresas em crise impactam fornecedores e parceiros, tende a multiplicar os pedidos.

No entanto, históricos de crises anteriores mostram que setores essenciais podem recuperar fôlego com políticas de estímulo e reformas estruturais, abrindo janelas de oportunidade para investidores de longo prazo que saibam administrar riscos.

Conclusão

As ações em recuperação judicial caminham na tênue linha entre um forte discount e riscos consideráveis. Com estatísticas alarmantes, mas também margens de valorização, esse universo demanda pesquisa detalhada e perfil arrojado para investidores dispostos a enfrentar a volatilidade.

Na prática, avaliar planos de recuperação com base em premissas realistas, diversificar a carteira e adotar gerenciamento rígido de riscos são passos essenciais para transformar essa potencial armadilha em uma oportunidade de ganhos acima da média.

Matheus Moraes

Sobre o Autor: Matheus Moraes

Matheus Moraes