Nos últimos três anos, o mercado acionário brasileiro tem se transformado sob o impacto de aportes externos. Em 2024, registrou-se uma retirada líquida de R$ 32,1 bilhões, mas 2025 veio como um ponto de virada: o saldo positivo atingiu R$ 25,5 bilhões, o melhor desde 2023. Em janeiro de 2026, até 21/01, já entraram R$ 12,35 bilhões, quase igualando o total de todo o ano anterior. Esse movimento reflete um momento de confiança global e consolida o Brasil no radar de grandes gestores internacionais.
Mais do que números, esse fluxo influencia a economia real: melhora a liquidez, reduz prêmios de risco e estimula o desenvolvimento de setores estratégicos. Para investidores, compreender as razões por trás desse fenômeno é fundamental para navegar com segurança em um cenário cada vez mais conectado.
O quadro abaixo resume o comportamento dos fluxos estrangeiros na B3 nos últimos três anos:
Além desses saldos, os volumes médios diários à vista chegaram a R$ 22,5 bilhões em janeiro de 2026, o maior patamar desde junho de 2023. Foram 32 pregões com recordes, incluindo o pico de 191 mil pontos no Ibovespa em fevereiro.
O Banco Central, por sua vez, apontou investimentos de US$ 3,752 bilhões em ações brasileiras e US$ 6,939 bilhões em renda fixa no primeiro mês de 2026, comparado a um resultado negativo em 2025. Esses números demonstram que o apetite dos estrangeiros não se limita às ações, mas engloba todo o espectro de ativos locais.
Globalmente, a combinação entre juros baixos no exterior e rotação de recursos dos EUA para economias emergentes tem sido um motor poderoso. As tarifas impostas e ajustadas por políticas protecionistas, como as dos EUA, elevaram a volatilidade, mas também destacaram mercados com maior liquidez e retorno potencial.
No âmbito doméstico, o fortalecimento das contas públicas com arrecadação acima do esperado e a redução do déficit em conta corrente baixaram as curvas de juros futuros. Isso criou um ambiente mais atrativo para capitais internacionais, especialmente em um contexto global de busca por rendimento.
Apesar do influxo estrangeiro, o investidor local adotou perfil mais defensivo. Instituições brasileiras retiraram R$ 46,6 bilhões em 2025 e mais R$ 16,7 bilhões em janeiro de 2026. A razão principal é o alto rendimento da Selic – em 15% ao ano – e a cautela frente às incertezas eleitorais.
Segundo Luis Ferreira, essa dinâmica gera um “efeito manada invertido”: enquanto estrangeiros pressionam por ativos de risco, o mercado interno recua para a renda fixa. O resultado é um rali intenso, mas restrito a poucas empresas, o que limita a profundidade da alta.
O cenário de taxas elevadas, com a Selic fixa em 15% desde junho de 2025, é uma faca de dois gumes: controla a inflação, mas encarece o crédito e atrai parte significativa do fluxo local para títulos públicos.
Especialistas apontam que a sustentabilidade do rali estrangeiro depende da convergência entre política fiscal responsável e manutenção de juros globais baixos. Se a inflação fugir ao controle, o BC poderá elevar ainda mais a Selic, reduzindo a atratividade da Bolsa. Já um desfecho eleitoral que gere reformas eficazes pode reforçar o fluxo.
Outro ponto de atenção é a concentração de ganhos. Enquanto modelos de valuation mostram que vários setores seguem subavaliados, a alta persistente em um punhado de ações pode levar a correções bruscas caso a rotação global de ativos mude de direção.
O fluxo estrangeiro trouxe mais liquidez, profundidade de mercado e integração global à B3. Em fevereiro de 2026, o índice superou 191 mil pontos, com alta acumulada de 5,58%. A diversificação de emissores e a adoção de práticas de ESG tornam o mercado brasileiro cada vez mais atraente.
Para o restante de 2026, as perspectivas dependem de:
Investidores devem buscar equilíbrio: combinar papéis de alta liquidez, que capturam os fluxos internacionais, e ativos com fundamentos robustos, preparados para resistir a volatilidades concentradas. A introdução de empresas de tecnologia e iniciativas de sustentabilidade pode ampliar o leque de oportunidades.
Em um mundo em que capitais se movem rapidamente, a Bolsa brasileira tem a chance de se consolidar como destino estratégico, desde que equilibre o crescimento com responsabilidade fiscal e governança alinhada às melhores práticas. Navegar nesse cenário exige atenção contínua a indicadores macro, posicionamento de grandes players e visão de longo prazo.
Referências